Panorama Geral
Autoria: Lucas, talmid e companheiro de Shaul
O capítulo 7 de Sefer Ma’assei HaShlichim é inteiramente dedicado à defesa de Stephanos diante do Sanhedrin. Acusado falsamente de blasfemar contra o Beit HaMikdash e contra a Torá, ele responde com uma drashá extensa, percorrendo a história de Israel desde Avraham até os dias atuais.
Stephanos relembra a fidelidade do Eterno, a dureza do coração de Israel e a rejeição contínua aos profetas. Ele enfatiza que o Eterno não habita em casas feitas por mãos humanas, citando Yeshayahu 66. Sua fala culmina com a acusação direta de que os líderes rejeitaram o Tzadik (Justo) prometido, traindo e assassinando aquele que foi anunciado.
Diante disso, os membros do Sanhedrin se enfurecem. Stephanos, cheio do Ruach HaKodesh, tem uma visão dos céus abertos e vê Yehoshua à direita do Eterno. Ele declara a visão, é arrastado para fora da cidade e apedrejado. Shaul, ainda jovem, aparece pela primeira vez, consentindo na morte.
A drashá de Stephanos segue o modelo clássico da recontagem da história de Israel como forma de exortação — algo comum nos Neviim e também em textos como Tehilim 78 e Nechemyah 9. Ele não está rejeitando a Torá ou o Templo, mas denunciando a hipocrisia de quem os honra com os lábios, mas rejeita o Eterno com as ações.
A citação de Yeshayahu 66:1–2 mostra que Stephanos compreende o Beit HaMikdash como símbolo, não como prisão da presença divina. Sua acusação de “dureza de coração” ecoa Yeshayahu 6 e Yirmeyahu 7.
A morte por apedrejamento fora da cidade segue a halachá de Sanhedrin 6:4. O fato de Shaul guardar as vestes dos que apedrejam indica sua aprovação, mas também sua futura conexão com o movimento.
Hebraico:
הִנֵּה אֲנִי רוֹאֶה אֶת־הַשָּׁמַיִם נִפְתָּחִים וְאֶת־בֶּן־הָאָדָם עוֹמֵד לִימִין הָאֱלֹהִים.
Transliteração:
Hineh ani ro’eh et ha-shamayim niftachim ve’et Ben haAdam omed li’min haElohim.
Tradução:
“Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé à direita de Elohim.”
(Ma’assei HaShlichim 7:56)
Stephanos não rejeita o Templo nem a Torá. Ele denuncia a idolatria institucional — o uso do Templo como escudo para a injustiça. O Cristianismo posterior usou esse discurso para justificar a ruptura com Israel, com a Torá e com o Templo — algo que Stephanos jamais fez.
A visão de Yehoshua à direita do Eterno é símbolo de exaltação messiânica, não de divinização trinitária. Stephanos vê o Mashiach como Ben Adam (Filho do Homem), expressão profética usada em Daniel 7.
| Yehoshua e os talmidim (KeTeR) | Cristianismo posterior |
|---|---|
| Templo como símbolo da presença, não prisão | Rejeição total do Templo |
| Torá como base da drashá | Torá como lei abolida |
| Yehoshua como Ben Adam exaltado | Yehoshua como segunda pessoa da Trindade |
| Martírio como consequência da fidelidade | Martírio como ruptura com o judaísmo |
Stephanos age como um naví (profeta): relembra a história, denuncia a injustiça, proclama a visão e entrega sua vida. Ele não busca defender-se, mas dar testemunho. Sua morte é um eco da morte dos profetas e do próprio Yehoshua.
A aparição de Shaul neste contexto é significativa: o mesmo que consente na morte será, mais adiante, transformado pelo mesmo Ruach que habitava Stephanos.
Tanach:
Bereshit 12–50 (história dos patriarcas),
Shemot 1–3 (Mosheh e o chamado),
Yeshayahu 66:1–2 (Elohim não habita em casas feitas por mãos),
Tehilim 110:1,
Daniel 7:13–14
Mishná: Sanhedrin 6:4 (procedimento de apedrejamento)
Talmud Bavli: Sanhedrin 97b (sobre o Ben Adam),
Berachot 7a (visões celestiais)
Midrashim: Tehilim Rabbah 110:1
Fontes históricas:
Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 20.9.1 (autoridade do Sinédrio)
Escritos do KeTeR:
Ma’assei HaShlichim 7
Toledot Yehoshua 26:64 (Yehoshua diante do Sinédrio)
Ma’assei Yehoshua 24:46 (sofrimento do Tzadik)